FOOD DESIGN: PARTE1- 3 ARTIGOS PARA VOCÊ ENTENDER O ASSUNTO.

Hoje resolvi escrever sobre um dos temas que pesquisei há algum tempo, em 2013, e que não se trata de marketing digital, mas de uma das vertentes do design- o Food Design.

Parte da minha motivação para a pesquisa em Food Design se deu pela inquietação de ver o tema ser encarado, na maioria das vezes, apenas por um dos vieses do design, o viés estético.

Numa série de três artigos abordo o Food Design, para você entender melhor esse assunto que vem ganhando espaço em vários países, dentro e fora das universidades de design.

Nesse primeiro artigo, antes de trazer o tema como é tratado na atualidade, traço um paralelo histórico entre: SOCIEDADE, DESIGN e ALIMENTAÇÃO. No segundo artigo, intitulado “AS CATEGORIAS DO FOOD DESIGN” apresento as categorias do Food Design, segundo a IFDS (Sociedade Internacional do Food Design), e trago exemplos interessantes de aplicações na atualidade. No terceiro e último artigo intitulado “FOOD ERGONOMICS: O ESTUDO DA ERGONOMIA DOS ALIMENTOS” apresento o termo Food Ergonomics que criei para chamar a atenção quanto aos aspectos da adaptação do projeto ao usuário.

UM PARALELO HISTÓRICO: SOCIEDADE, DESIGN e ALIMENTAÇÃO

A sociedade se caracteriza por um constante processo evolutivo devido às rápidas inovações tecnológicas, aumento da produtividade e no modo de viver e se relacionar com os produtos que são utilizados no cotidiano.

Mas, apesar de todas essas evoluções tecnológicas e de modo de vida, ainda somos muito parecidos com os povos que habitavam a China primitiva, a Suméria ou o Egito antigo no que diz respeito aos dilemas humanos, na nossa necessidade básica de alimentação e capacidade de produzir design. Vou explicar melhor esse raciocínio.

Assim como nos primórdios onde o ser humano adaptava pedras, galhos e peles de animais na confecção de suas ferramentas e objetos diários para serem usados com maior eficácia na procura de alimentos e sobrevivência; também atualmente continuamos a adaptar nossas ferramentas (computacionais, espaciais, automotivas, etc) para objetivos específicos.

Dessa forma, podemos dizer que os artefatos de design (aquelas ferramentas/ produtos que desenvolvemos) são um reflexo da nossa história cultural, política e econômica, ajudando-nos, portanto, a moldar a sociedade e afetando a qualidade de vida das pessoas (NORMAN; DRAPER, 1986). Da inserção desses artefatos à cultura humana, surge a cultura material do design que nada mais é que a possibilidade de trazer à luz determinada cultura por meio daquilo que é tangível, ou seja, por meio das coisas materiais – objetos, utensílios e artefatos.

No infográfico abaixo represento, de um modo didático, essa tentativa de estabelecer marcos da evolução humana por meio dos objetos. Na primeira linha evolutiva, passo dos artefatos rústicos usados pelos hominoides aos desktops pelos “humanóides”; na segunda linha evolutiva, passo dos primeiros artefatos religiosos de representações femininas  como a Vênus de Willendorf  à Nossa Senhora Aparecida; na terceira linha evolutiva da famosa cadeira de Michael Thonet (1859) a Cadeira Dino design fruitschaal de Aldo Cibic.

A linha evolutiva  e a cultura material do design. Autoria própria (2013).

 

A toda essa evolução histórica dos modos de vida e evolução do design aplicado aos objetos do cotidiano, que apresentei acima, atribuo a uma das necessidades primárias do ser humano, a alimentação, como propulsora da própria evolução e logo abaixo explico por quê.

A alimentação como agente da evolução

As sociedades primitivas que eram nômades em busca de alimentos, desenvolveram objetos como redes, arcos e flechas que ampliaram suas possibilidades de captação de alimentos. Esse desenvolvimento era uma adaptação cultural a necessidade de subsistência.

Crédito de imagem: http://ohistoriante.com.br

Desde então, podemos dizer que a evolução humana é entendida como processo da interação biológica e cultural, pois para suprir a necessidade básica da alimentação, foram desenvolvidas as ferramentas para a agricultura, fundadas as sociedades agrícolas e por fim as cidades, que com a industrialização e posteriormente com a revolução industrial, o estilo de vida da sociedade e os hábitos alimentares foram alterados significativamente.

 

O ALIMENTO COMO ARTEFATO DE DESIGN

Como comentado, a história da evolução humana é delineada pela alimentação e pelas habilidades produtivas dos alimentos. A necessidade de subsistência levou ao domínio de técnicas de agricultura que foram determinantes nos modos de vida dos povos, na formação da sociedade e sua expansão.

Atualmente, questões como a disponibilidade de matéria-prima, a distribuição em massa, o envelhecimento da população mundial, a preocupação com a qualidade e segurança alimentar, as emissões globais de gases de efeito estufa (GEE), entre outros; exigiu da indústria alimentícia uma orientação estratégica diferenciada quanto aos próprios alimentos.

Tais questões implicam em um nível maior de responsabilidade aos fabricantes e designers de alimentos, o que levou ao surgimento de uma vertente do design que trabalha unicamente com os alimentos e tudo que se relaciona com a alimentação, o Food Design.

Os alimentos são produtos de consumo, mas se diferem dos demais produtos desenvolvidos por designers, quanto ao uso e função já que são ingeridos/consumidos e tem como função principal manter a vida (LÖBACK, 2000). Além do papel central como fonte de nutrientes, os alimentos podem ser considerados como gratificação emotiva ou por expressar uma relação social.

Crédito de imagem: shutterstock

 

FOOD DESIGN: UMA VERTENTE DO DESIGN

O Food Design é a categoria que se aplica ao design de produtos alimentícios e relacionados à alimentação. O termo Food Design surgiu por volta de 1997, na Europa, e atualmente é organizado pela Sociedade Internacional do Food Design (INTERNATIONAL FOOD DESIGN SOCIETY, IFDS).

De acordo com Martí Guixé, um dos precursores dessa disciplina, o Food Design torna possível pensar no alimento como um produto de design, um objeto que nega qualquer referência da cozinha tradicional e gastronômica. O exemplo abaixo mostra o bolo que representa em cores a quantidade de seus ingredientes.

Martí Guixé, I-cakes, 2001. Photo by Imagekontainer/Knölke

 

Dar novas formas, cores, visual e até mesmo novas funções ao alimento estão incluídas nas tarefas do food designer. Por exemplo, a xícara Cookie Cup, do designer Enrique Luis Sardi para a empresa italiana Lavazza, feita de biscoito revestida internamente com um açúcar especial e pode ser comida depois de utilizada.

Xícara Cookie Cup. Lavazza

 

Existem muitas outras atividades desempenhadas pelo food designer, como projetar utensílios, melhorar a configuração do alimento para facilitar seu consumo ou adaptá-lo a receitas, como é o caso dos formatos de macarrão que permitem reter maior quantidade de molho.

Fussili de Michael Maehring.

 

O projeto de embalagem, também objeto de estudo no Food Design, vem se adequando cada vez mais as necessidades do consumidor e fabricantes, cumprindo além das suas funções primárias da embalagem de proteção para o uso.

Embalagem de manteiga com graduação para facilitar preparação de bolos. Fonte: Greenhalg (1997).

 

Como pôde ser exemplificado, esta vertente do design propõe pensar em todos os aspectos que envolvem os alimentos, desde o alimento em si, a embalagem, os ambientes, etc, e onde se consideram os fatores ergonômicos, funcionais, de segurança, comunicacionais, interativos e sensoriais envolvidos no ato de se alimentar e/ou na produção, distribuição e comercialização dos alimentos.

No próximo artigo intitulado “AS CATEGORIAS DO FOOD DESIGN apresento as categorias do Food Design, segundo a IFDS, com interessantes aplicações no projeto de alimentos

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Referências:

HESKETT, John. Design. Tradução de Márcia Leme. São Paulo: Ática, 2008.

HOEBEL, E. Adamson; FROST, Everett. Antropologia cultural e social, Editora Cultrix, 2006.

IFDS (Italy). International Food Design Society (ifds) (Comp.). Food Design: Subcategories.
Disponível em: <http://ifooddesign.org/food_design/subcategories.php>. Acesso em: 27 out. 2013.

LÖBACH, Bernd. Design industrial: bases para configuração dos produtos industriais. São Paulo: Edgard Blücher, 2000.

NORMAN, Donald A.; DRAPER, Stephen W. User centered System Design: new perspectives on human-computer interaction. Londres: Lawrence Erlbaum Associates, 1986.

OLIVEIRA SP, THÉBAUD-MONY A. Estudo do consumo alimentar: em busca de uma abordagem multidisciplinar. Rev Saúde Pública, 31 (2): 201-8,1997, E.P.

Agradecimentos:

Agradecimentos a CAPES pelo incentivo financeiro ao projeto de pesquisa.

Consultora e Designer estratégico na Features Design. Foi professora de Marketing e Mídias sociais nos Cursos de Publicidade e Propaganda e Produção Multimídia no IFSC. Apaixonada por café, design e tudo que se relaciona a estratégia empresarial.

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